Swift

A Estelar é negra e o cinema já é outro

Ei, gente!
Tô afastado do blog e da escrita há alguns meses já, né? Mudei de cidade, tava num processo de adaptação muito sério, mas acho que agora passou - pelo menos já é férias!
O que me traz aqui são coisas meio absurdas mas que aparentemente hão de ser comentadas, tais como: diversidade, representatividade e intolerância na produção cultural. Em outras palavras, qual o problema da Estelar ser negra? E também, por que é tão difícil aceitar a demissão do James Gunn?


Ontem teve fim a Comic-Con 2018. Nela, como de praxe, foram tragos à tona múltiplas novidades do mundo do cinema e da TV, além das HQs. No meio da explosão de informações, surgiu para debate o trailer da nova série dos queridinhos Jovens Titãs - sim, os da Cartoon em 2007 - titulada Titans, em produção pelo DC Digital. O que pegou foi o fato que a atriz que interpreta Estelar (Anna Diop) apareceu pela primeira vez personificando a heroína. Entretanto, ela é negra. De origem senegalesa.

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É fácil apontar o dedo, abrir espaço pras críticas - que foram fortes - e ainda ser complacente com todo racismo envolvido, se tivermos em mente que a Estelar que foi televisionada e ganhou popularidade há menos de uma década, é uma Estelar branqueada, que em pouco seguia o seu design dos quadrinhos.

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É com uma googlada muito leve que a gente chega na Estelar da HQ - a amarela, quiçá laranja.

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Isso sem levarmos em conta o desenho que hiper-popularizou online do brasileiro Gabriel Picolo, em que a personagem ganha feições ainda mais críveis.
Por fim, a atriz Anna Diop se viu forçada a sair de todas redes sociais por ter sido vítima de ameaças das mais diversas, inclusive contra sua vida.
A ideia de personagens tomarem feições mais representativas não se torna problemática pela primeira vez com Titans. Vocês se lembram quando anunciaram que o Tocha-Humana seria interpretado pelo Michael B. Jordan no reboot da Fox de Quarteto Fantástico? Ou mesmo quando Noma Dumezweni - mulher negra - foi contratada para o musical de Cursed Child, no papel de Hermione? São casos que dão deixas para declarações racistas, machistas e até xenofóbicas, no sentido que a deturpação da imagem dessas personagens se trata de uma adoção forçada do "politicamente correto", que destrói toda cultura que envolve a persona. São casos de racismo velado. É permitido falar mal. É permitido criticar. É permitido chamar de macaco. Se for em nome da opinião de fã. É um momento que "sua infância é desrespeitada", pois você cresceu vendo a personagem branca e, agora, em 2018, com esses millenials exacerbadamente liberais, você será forçado a ver uma mulher negra na TV. Uma mulher negra tomando seu lugar.
Todos esses discursos foram feitos no Twitter. Eu vi e denunciei sempre que esbarrava em um. Qual o sentido da Anna Diop ter que se retirar da internet e alguém poder ficar ali proferindo ódio?

A insatisfação com a escolha da atriz para a Estelar é entendível. Pode chamar de inexperiente. Ela é nova na carreira - mesmo que os outros do elenco também sejam. Pode falar que os roteiristas estão inflando seu ego com o politicamente correto. Pode até soltar uns tweets sobre como você prefere a Estelar do Jovens Titãs em Ação. Mas não pode: usar racismo pra justificar sua opinião; usar machismo pra justificar sua opinião; usar xenofobia pra justificar sua opinião; falar que só a escolheram por ser negra. E é ridículo as pessoas terem que repetir regras básicas de sociabilidade como essas. Os millenials devem estar cansados disso na internet.

O negócio, pessoal, é que tem gente pra ficar grilado com tudo. O que é televisionado já não é mais o filme de colagens de Méliès. O modo que o mundo gira, que os conceitos evoluem e as coisas deixam de representar o que um dia foram, pode ser difícil de acompanhar. Mas, convenhamos que piadas sobre pedofilia e estupro nunca foram algo engraçado, não é? E, além disso, o tempo em que se via isso e pensava-se "okay, não é um problema meu" também já não é esse. No momento que gente em posição de poder, de influência, se presta a comentar estupros na internet e ainda usa um "lol" no final, medidas hão de ser tomadas.
Eu diria que a demissão de James Gunn - diretor e roteirista de Guardiões da Galáxia - da Disney/Marvel infelizmente traz essa ideia de choque. Tiraram um homem que, antes da carreira com super-heróis, era famoso por Filmes B - aqueles com baixo orçamento e alta criatividade -, de uma posição de poder no cinema por ter tweetado piadas infelizes. A surpresa é entendível, uma vez que, só esse ano, com a campanha do #MeToo, dezenas de poderosos homens da indústria cultural foram denunciados abertamente, mas mantiveram seus empregos e carreiras. A Disney abriu precedente, durante seu anúncio na SDCC, para outras empresas seguirem o exemplo. É a hora de dizer não para filmes do Johnny Depp, Woody Allen, Morgan Freeman e Harvey Weinstein. É a hora de demitir, rescindir o contrato, ou só não ir ao cinema assistir o lançamento dele.
As mudanças do cinema - como agente de massificação da cultura - são reflexos de mudanças sociais, e vice-versa. Tirar Gunn da direção de um filme com público alvo jovem coloca em pauta tudo o que passa na mente desses. O que os consumidores desse material querem no âmbito de reformas. E esse exemplo servirá para muitos agora. Não direi que para todos, tendo em vista o tanto que já passou. O tanto que estupradores já lucraram no cinema. O tanto de gente escrota que ficou rica às custas de uma indústria reflexiva que, hoje, já receia em dar espaço para eles. O cinema já é outro. A TV, a música e os quadrinhos também.
Não é momento de ninguém defender o homem que acabou com sua carreira sozinho, é decepcionante pra toda comunidade do fandom ver o cast chamando Gunn de família. É teimar para ver que as coisas estão erradas e precisam da mudança que vem.




É um ponto final para Dr. Luke, Gunn e momento de recepção para gente como a Anna Diop.

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1 comentários

  1. Super concordo, já houvi muitas reclamações da estelar, sobre o fato dela ser negra e outras do cabelo não ser liso em algumas ilustrações...as pessoas procuram sobre o que reclamar e só depois prestam atenção na atuação . Sobre James Gunn super apoio a postura da Disney, eles não podem querer abranger o publico infantil(o qual eles tem uma longa imagem) tendo alguém com piadas e postura com teor pedófilo no twitter trabalhando para eles. Acho errado os atores defenderem por ele ser um "amigo" de set e diretor, pois eles não conhecem o intimo para julgar, se a pessoa tem essa postura e visão em uma rede social, imagina na privacidade.

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