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Sentimentos em "OVO", do Cirque du Soleil

Voltei. Mas voltei motivado pela arte e pela comunicação. É tanta expressividade que quase vazei. Foi necessário voltar. E já não penso em como captarão a mensagem - função conativa desligada da linguagem!
Algo me tomou há uma semana. Em pouco menos de duas horas, decidi que trabalharia com artes. Não tem uma possibilidade de futuro que me caiba para além da expressão artística. Quero falar sobre isso, estudar isso, comentar isso. O pior? Parece mínimo dizer o que me causou tantos insights. É pífio creditar tanta decisão à um só espetáculo, então, aqui, já me adianto: tratou-se de um conjunto de fatores; o conjunto da obra. Fui ao Cirque du Soleil, mas, claro, com um histórico de danças, atuações, performances, leituras, produções e publicações - para vocês ou não - de textos, a carga me foi maior.



Já sonharam com isso? Já viu na escola? Professoras de artes adoram mostrar um DVD, uma performance ou uma composição original do Cirque. Ao comprar os ingressos, tudo isso me veio à mente, amaciando o terreno para o plantio. Mas, do quê? Pois é, de tudo.
Ouvi dizer que há anos eles não vinham a BH. Lembro ainda de ouvir que a ex-esposa de um dos diretores à época o trocou por um belorizontino, culminando - mas é óbvio! - na culpabilização alheia. Todavia, acompanhando Deborah Colker pelo Instagram, com um carinho maior desde sua campanha por Haddad para presidente, soube da chegada do espetáculo OVO na cidade.
Deborah, exatos dez anos atrás, coreografava a peça para uma turnê mundial. Turnê que não chegou aqui. E que , agora, vinha. E, digo sem cláusulas prerrogativas, que veio entendendo cada demanda e ânsia do público que, com desleixos da joaninha, gargalhava; com saltos e rodopios aéreos, segurava o ar no peito, pressionando os pulmões; e que, com o fim, levantou-se em assobios e aplausos ecoantes pelo espaço do Mineirinho.

Chegando pela Alfredo Camarate, não havia trânsito. O Cirque move multidões, mas, com as n apresentações diárias, não eram volumosas as que apareciam.
Na entrada, duas senhoras conversando, cada uma com uma criança á frente. Avós e netos, amigas. Ao lado delas, um casal sozinho. Ele de bermuda e camiseta gola-polo. Ela, vestido florido. Havia, ainda, crianças muito bem vestidas. Algo que, ao popularizar-se uma arte do patamar global que se conhece do Cirque, é confuso. Como se vestir? Como se portar?
Tive, durante a primeira hora de apresentação, uma criança de, no máximo, sete anos, sentada na poltrona de trás. Me balançava de chutar minha cadeira e, seus pais, riam de seus comentários. "Será se eles não ficam com fome de tanto dançar?", "Quantas cordas será que seguram essa mulher?", "Ah! Tem um alçapão no chão! É de lá que as luzes estão saindo, não tem nenhum mistério, pai!". Se eu não dissesse que cogitei reclamar, mentiria.
Depois que a criança sacou a mágica dos alçapões antes de mim, percebi que ele estava me proporcionando uma leitura completamente diferente da obra. Algo que, pra mim, a tornou ainda mais especial. O seu olhar infantil trouxe, pra mim, uma compreensão nova sobre a vida dos insetos que dançavam, pulavam e se contorciam. Nesse raciocínio, imergi em uma proposta que se dicotomizava gritantemente da entendida por Deborah. Mas talvez, tenha sido uma apresentação mais leve em questionamentos humanos - ou animais, no caso de OVO.
Após o intervalo, a criança havia mudado de lugar com os pais. Dali, tive outra perspectiva. Juro. Gente velha comenta toda peça como se estivesse na Broadway. Nenhuma performance pode ser apenas uma performance. Nada para ser apenas sentido. Me foi exposto para ser comentado, arguido de significados e interpretado por uma razão mais crítica. E o engraçado? Pensar que, com recém formados dezessete anos, sou classificado assim também.

A popularização da arte traz isso. E, depois de um surto de vontade de escrever, em uma crise catártica concentrada, deixo toda a minha gratidão a quem dá sua vida à produção artística. Imaginem-me sorrindo fechando a aba desse texto.

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